Experiência em uma modernidade líquida
“Viver entre uma multidão de valores, normas e estilos de vida em competição, sem uma garantia firme e confiável de estarmos certos é perigoso e cobra um alto preço psicológico”.
Zygmunt Bauman
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Nestes últimos dias fui apresentado à um pensamento muito interessante e também devo dizer um tanto assustador, desenvolvido pelo sociólogo e filósofo polonês Zigmunt Bauman, chamado Modernidade Líquida. Enquanto me aprofundava em conhecimento sobre este conceito fui conduzido à algumas reflexões sobre as relações humanas, a relação que temos com os produtos e serviços ao nosso alcance e como esse conceito/realidade impacta o trabalho de um UX Designer.
Modernidade Líquida, nas palavras de Bauman, fala exatamente de uma orgia consumista que tomou algumas décadas da humanidade e que se estende até os dias atuais, no entanto, não é o consumo incontrolável que me levou à essa reflexão, mas o fato de que a liquidez antinge principalmente os valores e as motivações das pessoas.
Na época dos meus e talvez dos seus pais era comum ter maior certeza das coisas. As regras, crenças e valores passados por nossos avós a eles eram fatos e nada poderia provar o contrário. Era mais fácil imaginar um futuro distante e dizer o que ele reservava a nós. Os problemas eram bem definidos e as soluções para eles pareciam mais óbvias. As fases da vida eram nascer, estudar, trabalhar, constituir família e passar do prazo de validade. Da mesma forma era mais fácil entender o porquê de certos comportamento existirem.
O café da manhã às 7h00, todos se sentam felizes para almoçar ao 12h00 e 18h30 é um horário precioso para comunhão.
Saio 7h02 de casa e tomo café a caminho do trabalho, às 12h07 ou 12h42 ou 13h15 eu vou alí no restaurante comer rapidamente e entre as 19h27 e 21h12 eu chego em casa e como algo.
A consciência de uma modernidade líquida é essencialmente uma consciência de teorias não muito longas, conceitos não muito profundos, ideias muito rasas e a busca incessante por experiências que de alguma forma possam entregar rapidamente um pequeno aperitivo pois tenho 47 posts para ler, 6 artigos para escrever, 37 e-mails para responder e ainda arrumar algum tempo para relaxar passeando pelos feeds das redes sociais com inúmeras propagandas, posts das milhares páginas que sigo e ver os stories das perfeitas vidas dos meus 3.257 amigos.
Portanto, faço duas perguntas, uma como designer e uma outra como um ser humano dentre outros sete bilhões e meio de seres humanos:
Como esse comportamento afeta o desenvolvimento de experiências?
E de que forma estas experiências estão auxiliando na criação destes comportamentos?
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Designer de Experiência do Usuário!?
Antes de entrar no como quero introduzir brevemente o o que, nesse caso o o que um UX Designer faz. De maneira bem simplificada, UX Designer ou Designer de Experiência do Usuário é um título bacana dado a uma pessoa que, ao contrário do que se pensa, não está de fato projetando a experiência em si. Na verdade, todo UX Designer projeta os gatilhos que contribuem para que a experiência aconteça, em outras palavras, nós projetamos a estrada, as faixas, as regras de transito e as sinalizações mas quem dirige através dela é o indivíduo.
O Andrei Gurgel do UX Lab escreveu um artigo bem interessante citando três motivos para não usarmos o termo UX Designer que desenvolve mais a fundo o assunto.
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Como esse comportamento afeta o desenvolvimento de experiências?
Nikkel Blaase disse em seu artigo:
“ If the problem is non-existant, or the solution doesn’t fit to the problem, the product becomes meaningless and people won’t use the product.”
Produtos só se tornam significativos quando proporcionam uma solução, a solução irá descrever como o problema será resolvido, portanto, este como será a fonte principal para o desenvolvimento de uma experiência baseada em entrega de valor ao usuário.
O problema dos problemas é que, hoje, entender quais são os reais gatilhos que os criam se tornou uma tarefa que mesmo um time inteiro de UX custa a descobrir por conta das constantes mudanças épicas que ocorrem e que afetam o comportamento das pessoas, consequentemente, os produtos criados podem solucionar problemas mas não os problemas certos e por fim os gatilhos para experiências que são desenvolvidos acabam se tornando máscaras encantadoras para rostos feios.
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E de que forma estas experiências estão auxiliando na criação destes comportamentos?
Depois de refletir sobre todos esse pontos consigo chegar a uma lógica, estamos presos a um limbo de realidade líquida que conduz à criação de experiências superficiais e experiências superficiais que entregam apenas um aperitivo, um mínimo de valor real para as pessoas.
Pedimos por startups que solucionem nossas dores, pedimos por experiências que sejam transformadoras, transcendentes, que saciem nossa fome e o que isso gera? Bolachas se dizendo diferentes de todas as outras, a expectativa aumenta e você, mero ser humano, com vontade de provar algo diferente e preenchedor, ao provar, descobre que na verdade todas as bolachas são do mesmo pacote.
A proposta desse texto não é criticar algum comportamento em específico, nem mesmo rebaixar os designers e dizer que eles só estão criando produtos inúteis, até porque, eu sou um deles. A proposta é gerar um pensamento crítico a respeito do que estamos entregando, não digo de forma ampla para a humanidade mas para a fração de pessoas que se relacionam com aquilo que criamos.
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